Ao longo dos últimos anos, trabalhando com ferramentas de análise de perfil e potencial profissional, tive o privilégio de diagnosticar inúmeras competências e habilidades dos profissionais das organizações brasileiras.
Ao avaliar colaboradores das mais variadas instituições, no que tange a seu segmento e porte, pude analisar as inúmeras habilidades exigidas pelo mercado de trabalho no atual contexto organizacional, por meio da aplicação do diagnóstico APP (Avaliação de Potencial e Perfil) em que são analisadas 20 competências do indivíduo e são classifcadas em comportamentais e profissionais, como apresentadas no quadro abaixo: Fatores Profissionais Fatores Comportamentais 1- Planejamento 11- Percepção/ Priorização 2- Organização 12- Relalção com Autoridade 3- Acompanhamento 13- Administração de Conflitos 4- Liderança 14- Controle Emocional 5- Comunicação 15- Adaptabilidade a Mudanças 6- Decisão 16- Afetividade 7- Detalhismo/ Delegação 17- Auto-imagem 8- Tempo de Execução 18- Sociabilidade 9- Intensidade Operacional 19- Energia Vital 10- Flexibilidade/ Criatividade 20- Realização
Fonte APP – registro no INPI 00820008494
Dentre estas habilidades e competências um fator despertou meu interesse, quanto à sua incidência, em comparação com os resultados obtidos por outras culturas em países desenvolvidos. Trata-se da habilidade do profissional brasileiro em fazer seu “marketing pessoal” e vender sua própria imagem. Dentre os mais de 20.000 resultados de relatórios obtidos pelo APP, a grande maioria dos brasileiros apresentou uma auto-imagem rebaixada. Pude observar que algumas pessoas até confiam em seu potencial e sabem do seu valor profissional e de sua competência. Todavia, parecem apresentar um certo constrangimento quando necessitam confrontar-se com profissionais de países desenvolvidos, mantendo-se na reserva, quando deveriam ocupar o seu espaço. Parece também que há um certo receio em serem interpretados como pessoas “exibicionistas” e / ou “convencidas” , adjetivos que a maior parte dos trabalhadores brasileiros abomina.
A equipe de colaboradores destas empresas se pauta pela discrição, mas ao fazer isso, cometem o engano de deixar que outras pessoas ocupem o seu lugar, ao invés de assumir definitivamente seus resultados.
Ao pesquisar sobre o motivo de tal postura nos remetemos às características culturais dos países católicos em que fomos educados, em que os líderes daquele movimento ou crença, nos ensinaram a adotar posturas de humildade e submissão, levando-nos a temer a ambição e a prosperidade, por se tratar de desejos e aspirações inadequados. Eu mesma, quando criança, ouvia da minha avó materna que deveria ser humilde para agradar a Deus. Enquanto crescia passei a ter inúmeros conflitos internos, pois queria prosperar e crescer, mas a palavra “ambição” era considerada ambígüa e perigosa.
Por meio do APP, pude analisar também um outro fator que comprova a dificuldade do brasileiro em se vender, que está diretamente relacionado com sua capacidade de trabalho e intensidade operacional. Em sua maioria, os profissionais brasileiros trabalham em excesso e dedicam-se arduamente às atividades de sua responsabilidade nas empresas. No entanto, a imagem que se é percebida é de que somos um povo altamente social, o que é verdadeiro, e somente nos interessa as festividades que proporcionem lazer. Mas isso é irreal, pois apesar do genuíno interesse do povo brasileiro pelas relações interpessoais, dedicamo-nos excessivamente ao trabalho, revelando um alto gradu de produtividade, conforme pude comprovar por intermédio dos relatórios do APP. Todavia, curiosamente, somente transmitimos para o mercado uma imagem de um povo alegre e pouco comprometido com as organizações, fato este que prejudica enormemente o nosso “marketing pessoal” .
A socióloga, Glória Maria, em seu livro “ A energia do dinheiro”, cita exemplos das dificuldades que enfrentamos para lidar com a relação monetária, pois tememos estar ofendendo a “Deus”. Aliás, em seu livro, esta autora faz um paralelo muito interessante entre a expressão brasileira de “ganhar dinheiro”, que revela uma postura passiva em que estaremos sempre numa relação de dependência, impossibilitando-nos mentalmente de ir em busca de outras alternativas menos submissas. Paralelamente, esta mesma expressão na cultura americana é “make money” , ou seja, “fazer dinheiro” o que revela uma postura ativa em que as pessoas são educadas desde os primórdios de sua infância para aprender a buscar dinheiro, sem nenhuma modéstia, pois isso não é pecado.
Ao se aliar todos estes conceitos e observando as estatísticas do APP, em que nos últimos 5000 diagnósticos aplicados, 61% dos brasileiros apresentaram uma auto-imagem rebaixada, 22% aprsentaram um resultado na média e 17% revelaram uma autoimagem elevada, podemos constatar, por meio de fatos e dados, que o brasileiro, apresenta uma autoimagem rebaixada. E mesmo os 17% que apresentaram uma autoimagem elevada, são pessoas, que em sua maioria, tentam disfarçar uma insegurança pessoal, ao evidenciar que são melhores do que seu grupo de relacionamento, mas na verdade não acreditam em seu potencial. Tal dado corrobora ainda mais com a afirmação de que nós brasileiros temos “vergonha” de assumir que somos bons. Por estes resultados verificamos também, que ao menos 22% destes executivos confiam em si e têm convicção de que são tão competentes, quanto qualquer profissional de seu nível e demonstram segurança e confiança em si e em seu trabalho, nas instituições em que trabalham.
O que observei, nos mais de mais de 20.000 relatórios aplicados do APP, é que as pessoas que são seguras de si, realizam o seu marketing pessoal, por meio dos resultados que agreguem valor às organizações, sem necessariamente, apresentarem-se “ruidosas” , ou excessivamente “falantes”, sobre suas habilidades. O verdadeiro marketing pessoal é comprovado, por intermédio de resultados e evidências que confirmem a sua competência e seu real valor, assegurando a sua empregabilidade. No entanto, pelos resultados do APP, a evidência que mais se destaca é a grande dificuldade apresentada pelo profissional brasileiro de reforçar a sua imagem de forma assertiva e segura, por receio de ser considerado um “marketeiro”. Tal fato, faz com que este trabalhador demonstre uma auto-imagem rebaixada, perante a comunidade empresarial, com dificuldades para assumir um posicionamento de relevância.
Os fatores que nos levam a adotar este comportamento poderão ser pesquisados detalhadamente, mas sem dúvida alguma, após mais de 25 anos trabalhando com avaliação de pessoas e por meio da aplicação de uma ferramenta de diagnóstico gerencial com uma amostra de mais de 20.000 resultados, ouso afirmar que o trabalhador brasileiro apresenta uma auto-imagem rebaixada e sente-se constrangido em fazer o seu marketing pessoal.